Eli Fernandes

Eli dos Santos Fernandes fernandeseli@gmail.com

Sobre a "escola sem partido"

O MACARTISMO NA ESCOLA

 11 de abril de 2017 
Recentemente o jovem vereador Fernando Holliday, um dos dirigentes do MBL, visitou algumas escolas de São Paulo, com a finalidade de verificar suas condições de funcionamento e fiscalizar as posturas dos professores em sala de aula, para detectar tentativas de doutrinação ideológica dos alunos.
Não se trata de atitude isolada, arroubo de vereador novato que precisa mostrar serviço. Essa ação do vereador contextualiza-se num movimento de grupos de direita, fortalecidos pelo golpe jurídico-parlamentar de 2016, que intenta sufocar ideias de esquerda, que esses grupos chamam de ideologia comunista e de gênero. No âmbito escolar, tal movimento se expressa pela organização autodenominada “escola sem partido” que assume a responsabilidade de combater a contaminação político-ideológica promovida por “militantes travestidos de professores”, em todos os níveis do ensino.
Os principais pressupostos desse movimento são:
  1. Os alunos não têm capacidade de pensamento autônomo, imaturos emocional e intelectualmente e, por isso, são presas fáceis de professores doutrinadores que lhes “fazem as cabeças”. O processo de ensino-aprendizagem resume-se à transmissão de conhecimentos e formação de posturas que são docilmente assimilados pelos alunos. Educação e adestramento confundem-se.
  2. Os valores morais que os alunos levam para a escola são totalmente infundidos pela família, de tal forma que não cabe àquela qualquer possibilidade de trabalhar com outros que se lhes contraponham. Seria interessante que os mentores do projeto de lei da escola sem partido explicassem como o professor “respeitará o direito dos pais dos alunos a que seus filhos recebam a educação religiosa e moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções”, diante da pluralidade de convicções das famílias de seus alunos.
  3. De antemão se decide que as ideias e valores considerados de esquerda são tidos como perniciosos às consciências das crianças e adolescentes. Isso leva a uma estratégia de combate que despreza o debate aberto, privilegiando a denúncia e a punição dos professores. Na proposta de projeto de lei federal da escola sem partido consta em seu artigo 8º: O ministério e as secretarias de educação contarão com um canal de comunicação destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento desta Lei, assegurado o anonimato. Parágrafo único. As reclamações referidas no caput deste artigo deverão ser encaminhadas ao órgão do Ministério Público incumbido da defesa dos interesses da criança e do adolescente, sob pena de responsabilidade.
A questão que se coloca, ante a truculência dos saudosos da Guerra Fria, que querem ressuscitar o ambiente de perseguição e destruição de reputações e carreiras construído pelo senador McCarthy na década de 1950, nos Estados Unidos, com o mesmo pretexto da contaminação das ideias comunistas, é o que lhe podemos contrapor? Óbvio que os pressupostos desse movimento não resistem ao debate nos meios acadêmicos, mas, podemos observar que possuem alguma penetração na comunidade escolar. Desde professores que tendem a justificar seu imobilismo político por uma suposta neutralidade inerente ao seu trabalho, até familiares preocupados com o distanciamento dos filhos em relação aos valores e ideias incutidos no lar, não necessariamente só por “culpa” da escola.
Devemos contrapor exatamente o que é da essência do ato de educar: o debate. A escola tem de se abrir à comunidade, não só em ocasiões de festa junina, formaturas, etc., mas também para discussão de seu trabalho. O professor tem liberdade de cátedra, mas, isso não elide a sua obrigação de discutir com a comunidade o seu trabalho, suas opções pedagógicas e políticas. Do mesmo modo, as famílias também têm liberdade de ter seus valores e posições ideológicas, mas também passíveis de discussão no debate. Se escola e família são parceiras na educação das crianças e adolescentes, nada pode ficar fora da discussão. Ninguém pode se proteger na recusa ao debate de ideias. É a negação da possibilidade de educar. Em relação ao que, como professores, ensinamos na escola e, como pais, queremos que nossos filhos aprendam para serem pessoas donas de suas próprias vidas, ou seja, cidadãs, não podemos confundir o processo de ensino aprendizagem com inculcação de valores prontos, escritos nas estrelas, mas, construídos no debate, tanto em sala de aula quanto nas reuniões e conversas com os familiares de nossos alunos. Os professores sabem muito bem que seus alunos, crianças e adolescentes têm capacidade de pensar por si mesmos e têm experiência da resistência que muitas vezes oferecem a seus ensinamentos e que a educação escolar só se efetiva na discussão. Onde os alunos aceitam docilmente, sem discussão, o que se lhes ensinam não é escola, é igreja, onde os cordeiros são apascentados.
Se conseguirmos implantar esse clima de debate aberto em nossas escolas, certamente não teremos que nos preocupar com perseguições e truculência de quem não quer que nossos alunos pensem, só obedeçam aos “confiáveis” ao regime. Quanto mais respirarmos diálogo, menor nossa preocupação com denúncias. Se houverem, certamente cairão no ridículo, como caiu o macarthismo, antes mesmo da morte de seu mentor.
Antonio Carlos Rodrigues de Moraes,
Professor aposentado


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