Andarilhos
Zooropa foi lançado em 5 de julho de 1993, segundo a gloriosa Wikipédia. Lembro-me que já estava de férias do primeiro semestre de Jornalismo, quando liguei, à noite, na então rádio rock 89 FM (89,1) de São Paulo e lá estavam os apresentadores, acho que o Tatola e o Zé Luís, decifrando o monstro, mas que eles tinham com algumas músicas extras, tipo "Paint It Black" totalmente acústica (o CD era novidade no Brasil e aquele era importado, pois aqui não saiu com o cover dos Stones, mas era o primeiro álbum com músicas eletrônicas do grupo). Daí vinha o pesadelo cibernético de "Zooropa", que abria o disco, embora na minha versão, uma fitinha cassete que eu gravei num antigo Toshiba, começava com a releitura de Rolling Stones na minha gravação tosca, repleta de chiados da rádio mal sintonizada e eu, quando ouvi "Numb" pensei que a rádio tinha sacaneado e colocado "All that Shee Wants" do Ace of Bace, mas não, era o mesmo U2 católico e até piegas (sem perder qualidade por isso) de "Sunday Bloody Sunday", agora cansados de pregar no deserto. Ainda nos deram um toque do que vinha por aí: A Europa unificada. E com um belo patrocínio da Philips. As letras "falam" de pedofilia, drogas, ideologias, e muita, muita polifonia, antecipando a zona da nuvem de comunicação que envolve hoje o Planeta. Sem dúvida, uma obra de arte. Mas o melhor momento do "disco" está na visionária "The Wanderer", algo como "O Andarilho". Pouco conhecida até hoje, não tem a voz do Bono, mas tem a poesia dele na letra, feita às pressas e para a voz do crente Johnny Cash que, segundo lendas urbanas, passava por acaso pela Europa quando o U2 da Irlanda católica gravava na Berlim recém reunificada. (Eli Fernandes fernandeseli@gmail.com)
"O Andarilho" ("The Wanderer")
Eu saí caminhando pelas ruas pavimentadas com ouro
Levantei algumas pedras, vi pele e ossos
De uma cidade sem alma
Eu sai andando sob um céu atômico
Onde a terra não dá frutos e a chuva queima
Como as lágrimas quando eu disse adeus.
Sim, eu saí sem nada, nada além de sua lembrança.
Eu saí vagando.
Eu fui sendo levado pelas capitais de lata
Onde homem não pode caminhar ou falar livremente
E filhos falharam para com seus pais.
Eu parei na frente de uma igreja
Onde os cidadãos gostam de sentar.
Eles dizem que eles querem o reino
mas eles não querem Deus nele.
Eu saí dirigindo por aquela velha rodovia
Eu passei por mil sinais procurando pelo meu próprio nome.
Eu procurei com nada além do pensamento que você estaria lá também,
Procurando por você.
Eu saí na procura por experiência
Para experimentar, tocar e sentir
Enquanto o homem puder antes de se arrepender.
Eu saí em busca, procurando pelo bom homem
Um espírito que não se entortaria nem quebraria
Que sentaria ao lado direito de seu pai.
Eu saí caminhando com uma bíblia e uma arma
A palavra de Deus pesando em meu coração
Eu tinha certeza que eu era o escolhido.
Agora Jesus, não espere,
Jesus eu estarei em casa logo.
Sim, eu procurei pelos papéis, disse a ela que estaria de volta de meio-dia.
Sim, eu saí com nada além do pensamento que você estaria lá também
Procurando por você.
Sim, eu saí sem nada, nada além de sua lembrança.
Eu saí vagando.
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